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Parricídio Simbólico

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Quando o Estado executa o parricídio simbólico e se torna o "Pai Supremo", o homem que busca o casamento tradicional não está, em última análise, buscando aprovação do próprio ente que o castrou?

A pergunta toca no cerne de uma contradição existencial moderna: a busca por uma estrutura de significado dentro do próprio sistema que aniquilou os fundamentos que a tornariam possível. O Estado contemporâneo, ao usurpar a função paterna através de seu aparato jurídico, social e simbólico, comete um parricídio metafísico. Ele não elimina apenas a figura do pai biológico como árbitro final da lei doméstica, mas assassina o próprio princípio da autoridade patriarcal, substituindo-o por uma teia de regulamentos, tribunais de família e ideologias que têm, como efeito colateral, a castração sistêmica do homem como provedor, protetor e juiz no âmbito familiar.

Neste contexto, o casamento tradicional transforma-se num paradoxo agonizante. O que se entende por "tradicional" é, hoje, um simulacro administrado pelo Estado-Pai. O contrato matrimonial não é mais um pacto entre famílias, sancionado por costumes ancestrais e pela autoridade do pater familias. É um formulário estatal que concede ao aparato burocrático o poder de dissolver a união, determinar o destino dos filhos, repartir os bens e, em última instância, redefinir os termos da vida privada. O homem que busca esse casamento, portanto, não está se submetendo a uma tradição orgânica, mas a um ritual secularizado cujo sacerdote supremo é o juiz de família, e cujos dogmas são o divórcio unilateral, a pensão alimentícia e a guarda compartilhada como concessão estatal.

Buscar aprovação deste ente castrador é um ato de profunda incongruência psicológica. É como pedir a bênção do carrasco para o próprio enforcamento. O Estado, na figura de Pai Supremo, oferece uma falsa promessa de reconhecimento e estabilidade, mas a moeda de troca é a renúncia à soberania masculina. O homem entrega sua autonomia em troca de um selo de normalidade social, ignorando que o próprio selo é o instrumento de sua subjugação. A cerimônia civil torna-se, assim, um ritual de iniciação na própria impotência: o noivo assina um documento que concede a um terceiro, o Estado, o poder de intervir em sua vida íntima, desfazer seus laços e expropriar seus recursos, tudo sob a linguagem neutra e benevolente da "proteção da família".

A tragédia reside na internalização desta lógica. Muitos homens, desejosos de cumprir um script social herdado, não percebem que o palco e o roteiro foram radicalmente alterados. Eles almejam ser "bons maridos" e "bons pais" segundo um modelo cujas regras foram escritas pelo mesmo poder que os despojou da capacidade de defini-las. A aprovação que buscam é a de um sistema que mede seu valor pela capacidade de pagar pensões, pela obediência a ordens judiciais e pela submissão a uma ética que pathologiza a autoridade masculina natural, classificando-a como "tóxica". O prêmio por essa aprovação é a perpetuação de sua própria condição de menoridade legal e simbólica.

A resposta filosófica a este dilema não está na simples rejeição do matrimônio, mas no reconhecimento desta armadilha metafísica. Requer um exame de consciência radical: o que se busca realmente? A reconstituição de uma autoridade legítima, ou a validação por um sistema que só reconhece aqueles que aceitam suas correntes? A verdadeira tradição não era um contrato com o Leviatã, mas uma ordem natural baseada na propriedade, na descendência e no poder decisório incontestável do homem sobre seu domínio. O casamento administrado pelo Estado é o antítipo disso: é a domesticação do impulso familiar, transformando-o num mecanismo de controle e extração de recursos.

Portanto, a busca pelo casamento tradicional no mundo atual é, frequentemente, uma forma de Stockholm syndrome cultural. O refém passa a amar e buscar a aprovação do sequestrador. O homem, espoliado de seu papel natural, corre atrás da migalha de reconhecimento que o sistema oferece àqueles que jogam conforme as regiras que os aniquilam. A solução, para aquele que enxerga esta contradição, não pode ser a simples adesão. Deve ser uma reavaliação profunda dos próprios desejos e uma possível rejeição do jogo por completo, ou a tentativa de reconstruir laços e estruturas fora do alcance do Pai Supremo estatal, em esferas de soberania pessoal e comunitária onde a autoridade masculina possa ser exercida sem pedir licença ao próprio poder que a aboliu. A verdadeira autonomia começa quando se percebe que a aprovação do castrador é o último dos grilhões a ser quebrado, pois é aquele que se encontra dentro da mente. A liberdade não é dada pelo Estado-Pai; é tomada por aquele que ousa viver sem pedir sua permissão, construindo significado em bases que lhe são próprias, sejam elas solitárias ou comunitárias, mas sempre soberanas.

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