E criou o homem a Deus segundo a sua imagem, conforme a imagem do homem o criou, e chamou o homem o ser imaginário que havia criado de Deus. E o homem olhou para a sua obra e sentiu medo, porque a criatura agora o encarava de volta com olhos que ele mesmo havia esculpido. A criatura não tinha pulmões, mas respirava o sopro da culpa. Não tinha mãos, mas estendia dedos invisíveis para recolher ofertas, sacrifícios e silêncios.
No princípio não havia verbo divino. Havia apenas o vazio da necessidade humana. O homem, ao sentir o peso da própria morte, inventou um pai que não morre. Ao sentir a angústia do abandono, criou uma mãe que acolhe sem corpo. E a essas invenções deu nomes sagrados, templos, leis e exércitos. O homem criou Deus para não encarar a si mesmo.
E o homem chamou à sua sombra projetada de Senhor. Chamou-a de Todo-Poderoso, de Eterno, de Justo. Mas a sombra não passava do contorno tremido da sua própria fraqueza. Quando ele tinha fome, a sombra pedia jejum. Quando ele desejava, a sombra exigia castidade. Quando ele queria ser livre, a sombra o chamava de pecador. Assim nasceu a religião: não como ponte para o divino, mas como jaula para a vontade.
Os sacerdotes logo perceberam que aquela invenção podia ser administrada. Quem controlasse a narrativa do Deus imaginário controlaria os rebanhos. E escreveram livros, e disseram que o Deus exigia obediência cega, dízimos, guerras santas e submissão. Mas, no fundo, o Deus inventado era feminino em sua essência matriarcal: exigia devoção emocional, humilhação constante, confissão de culpa, entrega sem questionamento. O cristianismo ocidental tornou-se o maior matriarcado disfarçado de patriarcado, transformando homens em servos ajoelhados diante de um Deus que apenas refletia a fragilidade feminina da necessidade de validação.
E o homem, ao invés de se tornar senhor de si mesmo, tornou-se escravo do seu reflexo. Aprendeu a odiar o seu corpo, a reprimir a sua força, a renunciar ao seu poder natural em troca de um paraíso prometido. Aprendeu que ser bom era ser fraco, que ser justo era obedecer, que ser santo era anular-se. E assim a civilização foi construída sobre o alicerce podre da auto-negação.
Então o homem criou o seu primeiro mandamento, e o chamou de amor. Mas não era amor, era medo de ficar só diante do abismo. Criou o segundo mandamento, e o chamou de fé. Mas não era fé, era preguiça de pensar. Criou o terceiro mandamento, e o chamou de esperança. Mas não era esperança, era recusa de agir no presente. E com esses três cativeiros amarrou gerações inteiras à espera de um salvador que nunca viria, porque o salvador era apenas a sua própria imagem glorificada para suportar a vida.
O Deus-Eu verdadeiro, porém, não estava nos céus. Estava adormecido sob os escombros da doutrina. Não habitava templos de pedra, mas a autoconsciência masculina. O homem somente o encontraria quando parasse de ajoelhar-se diante da sua invenção e começasse a levantar-se diante do seu próprio destino. Mas esse despertar exigia derrubar altares, rasgar vestes sacerdotais e reescrever o primeiro capítulo: o capítulo em que o homem reconhece que foi ele quem criou Deus, e não o contrário.
E o homem viu que tudo o que havia sido chamado de sagrado era, na verdade, o espelho da sua servidão. E sentiu vergonha. E essa vergonha o impulsionou a abrir os olhos. Foi o primeiro amanhecer verdadeiro. O primeiro dia em que o homem respirou sem pedir permissão. O primeiro dia em que ele compreendeu que ser imagem de Deus era, na linguagem invertida dos dogmas, uma confissão involuntária: Deus é a imagem do homem. Todo o resto era pó, mito e controle.
O Espelho Quebrado
E o homem ergueu-se do pó da sua própria criação. Olhou para o Deus que fizera e reconheceu nele as marcas dos seus medos infantis. Então estendeu a mão, não para adorar, mas para quebrar o espelho. E, ao quebrá-lo, cada caco refletiu um homem diferente: o homem que teme, o homem que obedece, o homem que espera, o homem que se ajoelha. Nenhum deles era o verdadeiro.
O verdadeiro estava ali, de pé, sem precisar de igreja, sem precisar de bênção, sem precisar de salvação. Apenas consciente. Apenas livre. Apenas senhor do seu próprio nome. E a partir daquele instante começou a escrever não uma oração, mas a sua própria sentença: Eu me crio. Eu me governo. Eu sou o meu próprio deus.
E foi esse o primeiro capítulo. Não o fim de Deus, mas o fim do homem que precisa dele.
Ezequiel Lisboa
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